CAMINHO DOS CÉUS
"Um dia desses me encontrava diante de uma linha de trem abandonada, no interior de Minas Gerais, terra natal de minha falecida avó. Encontrava-me defronte aos trilhos, sozinha, sem ninguém para atrapalhar o momento, o que me fazia ficar em paz, numa paz inquietante que assolava meus pensamentos... "Terminar a faculdade? Trancar a faculdade? Desistir de tudo ou simplesmente sair sem rumo, com minha bicicleta sem freio, prosseguindo para o horizonte sem fim. O horizonte, ao longe era quase que inatingível, uma cena de novela, dessas em que os personagens principais, de mãos dadas seguem andando, sem destino. Não, não foi assim, afinal, a novela não existia na realidade, e o script fora formado a partir da minha própria imaginação. Seguir os trilhos era uma opção, a mais fácil por assim dizer, horizontalmente rumo ao horizonte, sem curvas. Imaginava um caminho sem volta, oblíquo e dissimulando uma vida certinha dessas que a mocinha da novela é obrigada a seguir fielmente ao seu diretor, fazendo o que ele ordena, atuando em prol de um enredo massivamente cativante... Ou não? Eu não sou atriz, até pensei em ser um dia, mas isso é estória para outro post. Voltando à encruzilhada que me encontrava ou melhor, me perdia diante de meus pensamentos infames, delírios que queria esquecer, mas persistiam martelando em minha mente. Não é possível seguir em frente naquele caminho, eu gosto de curvas, gosto de tangentes, gosto de tudo que não é horizontal, o formato das coisas no mundo devem ilustrar o que somos, humanos errantes, capazes de por meio dos erros aprender no peito e na marra a crescer, amadurecendo, criando forças para enfrentar o mundo dos boletos, a frieza dos bancários que toda semana enchem sua caixa-postal com cobranças. Basta de tanta hipocrisia mascarada de deveres do cidadão de bem! Pagar suas contas ninguém quer, o negócio é usufruir de um mundo vazio, em que o boleto seria como a etiqueta fabril do capitalismo que insiste em veiculando o dinheiro, corrompe nossas vidas. Falta amor nesse mundo, falta capacidade crítica de vencer a intemperança do código de barras, a numeração exigida servirá apenas para te colocar como mais um, numeral arrependido que assola a razão e serve de instrumento para o poder do sistema. Quebrar o sistema, esse é meu lema! Então, concluo que na encruzilhada a melhor forma de escolher o caminho menos conturbado, siga pela tangente que te leva ao seu coração, lá no fundo você saberá exatamente o caminho a seguir, basta dar o primeiro passo que te levará ao horizonte das expectativas que embora frustradas foram de fato vividas, a experiência concebe a essência humana do querer, a dádiva divina, conduzindo-lhe para o caminho dos céus."
(monólogo de autoria de @daniellabmc__ para Memórias Dilaceradamente Infames)

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